Quando a poesia encontra o rock
Ivan Ayres
“Tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você”. Com uma letra recheada de mágoa e um som enérgico e cativante, o Legião Urbana ingressa de forma contundente e incontestável no mundo da música na, certamente, época mais profícua do rock brasileiro. O ano é 1985 e a música “Será” arrebata corações e mentes de jovens ávidos por um porta voz de suas angústias e inquietações.
O Legião não foi simplesmente uma banda, seus fãs da época expressavam um total endeusamento pelo grupo e seu vocalista-líder-compositor Renato Russo, como nunca se vira antes no Brasil. E o Legião correspondia. Renato Russo jamais decepcionava. Letras complexas, poéticas, elaboradas, atordoavam e encantavam, fazendo render-se também a critica, que o reconhecia como um dos melhores letristas do rock nacional , aos versos daquele jovem poeta, sempre visceral e eloquente, que sabia tocar em feridas e sentimentos ao mesmo tempo com delicadeza e contundência.
Na trajetória “anos 80” do Legião Urbana, Renato Russo deixou um legado das mais belas e fortes letras daquela década: ”Será”, “Geração Coca Cola”, “Ainda é Cedo”, “Por enquanto”, ”Tempo Perdido”, “Angra dos Reis”, “Pais e Filhos”, ”Eduardo e Mônica” e a quase épica “ Faroeste Caboclo”.
Nos anos 80, o Legião Urbana lançou quatro discos, todos de indiscutível sucesso. “Legião Urbana” de 1985; “Dois”, de 1986; “”Que País É Este”, de 1987; e “As Quatro estações” de 1989, considerado por muitos o melhor álbum da banda, com quase todas as músicas executadas nas rádios. Fato memorável para qualquer banda.
Ao lado de Cazuza, outro poeta visceral da década, Renato Russo expressou, através de suas “poesias”, um mundo imperfeito; de carências, dúvidas, mágoas e a busca do amor. Renato Russo foi uma das maiores personalidades do rock nacional dos anos 80, e, nos anos que se seguiram, continuou a sua produção de letras e músicas, até hoje consideradas entre as mais belas do rock. Sua morte, precoce, devido a complicações causadas pela AIDS, não diminuiu o culto à sua personalidade e legado, e até nos dias de hoje, o som do Legião Urbana soa como algo novo e atual, arrebatando jovens que sequer eram nascidos quando seus primeiros versos ecoavam com suas constatações e questionamentos. “Será que vamos ter que responder, pelos erros a mais, eu e você ?”.




